.....................................................................................................Porque não só vives no mundo, mas o mundo vive em ti. .....................................................................................................

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Das pequenas Mortes diárias


 Cristina Troufa; Acrylic, 2011, Painting "Pedestal

A noite passada eu vi novamente o filme A menina que roubava livros, porque eu queria prestar mais atenção em alguns detalhes da filmagem e algumas falas, principalmente as que o narrador, a Morte, diz nos momentos finais da história. A mais intrigante talvez seja esta: "Está aí uma coisa que nunca saberei nem compreenderei - do que os humanos são capazes."

Os humanos realmente são capazes de coisas que até a morte se surpreende ou duvida, como o incrível poder de superação e de resiliência de algumas pessoas. Algumas sofrem tanto no decorrer de sua existência, mas vão em frente, resistem, buscam o lado luminoso da vida, reagem com garra, otimismo e conseguem viver muito, como foi o caso da personagem do livro, a menina, que viveu mais de 90 anos para contar sua história.

Porém, há os que são fracos, os que morrem cada dia absorvendo a mente com poluições que só fazem mal ao corpo, pois se não tivermos um perfeito domínio sobre isto, adoecemos ou vivemos morrendo a cada amanhecer.
Por isso estou na tentativa de não ser assim, tento espantar fantasmas da mente, tento viver os dias lendo e buscando, através do otimismo, não deixar que se instale em meus dias, o lado negro e desagradável dos pensamentos, que às vezes insistem em matar-nos um pouquinho.

"Quando a morte conta uma história, você tem que parar para ouvi-la." - Esta é mais uma das frases incríveis deste filme/livro - Por esta razão trago abaixo, um texto absolutamente incrível e inspirador para todos nós, a fim de combatermos com garra nossas 'mortes diárias'.
O texto é de Roberta Simão e está no Site Obvious, que transcrevo abaixo:



Ensaio sobre nossas pequenas mortes diárias


Há um mistério que intriga a maioria dos seres racionais desse planeta: a falta de controle sobre a nossa morte. Intelectuais e poetas sempre manifestaram sua admiração por este tema. Enxurradas histéricas de novas invenções tecnológicas são nossas cúmplices no sentimento cego de poder e controle sobre todas as coisas. Juntas e tacanhas convivem a era do controle, a era touch, a era glass e tantas outras histerias tecnológicas, que nos fazem sentirmos capitães das fragatas nas ondas da internet e de nossas vidas.
O fato é que muita gente já morreu alguma vez e nunca desconfiou disso. Inclusive você, não obstante eu. Porque a gente morre quando levanta da cama e já corre para olhar o celular. Morre de monotonia, de inércia, de marasmo, de falta de sonhos e de sonhos não realizados. A gente morre de medo de por o dedo em riste na cara do próprio medo e de pegar a coragem e seguir caminhando.
Morremos de medo de trocar hábitos, de mudar de ideias, convicções, de ver as coisas por outra perspectiva e damos um repeat automático nos comportamentos viciados e ranzinzas. Morremos de medo de olhar para o espelho da consciência e encarar os olhos nada atrativos das verdades de nossa alma, pois os reflexos geralmente são indigestos e desagradáveis. Morremos de medo de colocar em pratos limpos as mazelas de uma relação corroída, mas sustentada, apesar do visível desgaste, devido à insistência do amor que já não é mais o mesmo, mas que poderia voltar a ser ainda melhor se fossemos viscerais e honestos com nós mesmo e com o outro. Morremos na reincidência infinita de conhecidos ranços e defeitos, dos outros, e nossos. Morremos quando não somos coerentes com o que sentimos.
Chico Buarque já cantava sobre o tema em sua música Cotidiano: “Todo dia ela faz tudo sempre igual, me acorda às 6 horas da manhã”. Também na música Construção: “Beijou sua mulher como se fosse lógico. Ergueu no patamar quatro paredes flácidas. Sentou pra descansar como se fosse um pássaro. E flutuou no ar como se fosse um príncipe. E se acabou no chão feito um pacote bêbado. Morreu na contramão atrapalhando o sábado”.


Na verdade, vivemos cercados de óbitos commoditizados, sem cara nem desejos. E não sabemos de que forma sair de tão grande e paraplégica falta de competência de atitudes. Morremos de frio na alma e de falta de verdades. De amor encoberto e não depurado pela falta de coragem e por excesso de orgulho. De afeto endurecido e estancado. De gentileza não manifestada numa fala que deveria ser doce. Morremos de egoísmo e de falta de sensibilidade. Morremos de silêncios e escapismos. Não botamos para fora o que não nos agrada por medo de julgamentos. Morremos de preconceitos, de inveja, de ódios e opilações de fígado. E juramos que esses sentimentos, totalmente anti-civilizados e sem elegância, se manifestam e pertencem apenas aos outros. Também se morre de arrogância, de presunção, de soberba. Morre também quem permite que a paixão morra no sexo e que faz amor fingindo prazer, como quem come um mil folhas com o nariz completamente entupido.
Muita gente também morre de mediocridade. Pessoas que não são capazes de reconhecer o valor e os grandes feitos do outro. Sem saber que esta atitude só demonstra sua fraqueza comissiva de alma e que a mediocridade anda de mãos dadas com inveja. Muita gente morre de orgulho e nunca pensa na possibilidade de ceder. Gente que nunca conheceu a grandiosidade do ato de perdoar, do conforto de um abraço de perdão e do discurso sem máscaras.
Urgente! É preciso ter coragem e força de personalidade para olhar para dentro de si e, identificar essas pequenas mortes diárias. Fazer delas o combustível para catarses existenciais que melhorem cada um como ser humano. Que nos possibilite ver e ter uma vida com mais honestidade, ética, sensibilidade, poesia, densidade e amor. Ter a coragem de trocar nossas pequenas mortes de cada dia por sobressaltos cheios de cores, beijos úmidos e risadas altas, prontas para ocupar os palcos de uma vida mais verdadeira e se refestelarem soltas ao sabor do vento sem nenhuma amarra ou máscara. Vida longa e muito amor a todos que se dispuserem ao desafio.










terça-feira, 16 de dezembro de 2014

A luz de cada manhã é minha esperança.

Não, não vou falar mal da tristeza, não seria justo. 
Eu devo a ela minhas profundidades, minha imaginação, minha volta por cima. 
Graças a ela vislumbrei coisas importantes para mim. 

Zélia Duncan

Este não foi um bom ano para mim e, acredito, para a metade da população que votou contra o governo que continuou no poder. Talvez esta seja a grande razão para muitas pessoas estarem sem ânimo, principalmente diante do quadro negro que se descortina a cada dia, com novas descobertas de roubo do dinheiro público e da falta de justiça verdadeiramente para que não se proliferem tantos e vergonhosos crimes contra nós, o povo brasileiro. Carecemos de justiça urgentemente!

Mas, esta fala da poeta acima me fez pensar ontem à tarde, pois é preciso dar a volta por cima e continuar a viver e enfrentar estes percalços. Nada é pra sempre e os dias estão contados para aqueles que fizeram o mal e continuam mentindo, escondendo-se atrás da capa hedionda da hipocrisia e da corrupção.

Temos a capacidade de vislumbrar saídas diante do caos, e para isso temos que empreender forças, direcionar a vontade e trabalho, com certeza, conseguiremos realizar os sonhos programados e não vamos desistir enquanto houver vida e força física e emocional.




Virá. Terrível e branca.
Não importa o que eu faça.

Toda esperança é vã.
Implacável, sob a porta

e entre as frestas da janela,
ela - a luz da manhã. 

Adriano Espínola








quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

O Exterminador de Bosquezinhos

-Tumblr.-

Samambaias e avencas solitárias enfeitam com verdes rendas limoso nicho.
Gotas de orvalho lembram pérolas, contas de rosário enfiadas em capim.
Aveludados musgos amaciam a face dura de rugosas pedras.
Alegres pássaros cantam afinados duetos c om cigarras estridentes.
Centelhas de ouro em pó, estilhas de prata laminada,
enchem de raro encanto
a folhagem molhada
daquele ameno recanto...
Décio Valente

Estalinhos de galhos secos eu podia sentir a cada pisada, e qualquer pequeno ruído fazia minhas orelhas ficarem bem atentas como a de um coelhinho acuado nas poucas vezes em que andei por lá. Um micro bosque eu tinha ali instalado, bem detrás da casa, num terreno íngreme, abrigo de bichinhos que passam imperceptíveis durante o dia, como; aranhas, rãs, lagartixas.  Acontece que a defensora aqui do mundo natural, tem medo de répteis e batráquios. Uma perereca rosa e saltitante pode levar meu coração a centenas de batidas por segundo e quem sabe até uma síncope!
Bela medrosa eu sou, reconheço! Mas, não posso nem pensar em pisar num sapo ou lagarto, como o que foi visto dias atrás pelo pedreiro que anda por lá, consertando o muro da casa. Ele  disse-nos que viu o bicho e que era bem grandinho, quase um jacaré. 
Já vi que não somente os pescadores mentem ou inventam tamanho de bicho, aquele pedreiro também. Mas, por via das dúvidas, nem chego perto onde o homem avistou o tal lagarto.

Muitos paus d'água, avencas agarradinhas neles, samambaias do mato verdinhas, alguns agapantos, um bouquê de hortências, um pé de pitanga que divide o meu terreno e o do vizinho que, ainda como nos tempos antigos, é demarcado apenas por uma cerca de arame verde entrelaçada, onde nela sobem trepadeiras, pequenos arbustos e plantas diversas que nasceram ali, trazidas talvez, pelos pássaros ou pelo vento. O verde era abundante.

De uma semana pra outra foi quase tudo devastado. E o lagarto, com toda certeza, já não se esconde mais lá, foi procurar outros verdes pra descansar durante o dia.

Sim, o pseudo-jardineiro que arranjamos, entendeu errado, quando dissemos: - Precisa desbastar um pouco o mato entre as plantas. 
Fiquei chocada quando olhei de dentro do meu quarto para aquele que era meu 'bosquezinho encantado'.

E o homem quando me viu no sábado pela manhã, foi logo perguntando se eu gostei da 'limpeza'. 
Conseguem imaginar a minha cara?  Pois é!  Mas, o marido para me consolar, prometeu que vai fazer ali uma espécie de jardim suspenso, livre de lagartos e pererecas.

Por enquanto, restou a pitangueira me olhando longe, meio deslocada, sem suas amigas avencas sempre agarradinhas e algumas outras arvorezinhas que foram poupadas do jardineiro-exterminador.











domingo, 7 de dezembro de 2014

Coisas de mulher


Ahhh sabem de uma coisa: sempre digo que se existe reencarnação quero voltar mulher!

Podem dizer que a gente sofre mais, que a gente é mais complicada, que até pra vestir exigimos mais cuidados e adereços, mas eu gosto, gosto de tudo que concerne o mundo feminino!
Especialmente aquele em que os gestos e atitudes, são marcas delicadas que serão lembradas por nossos filhos e os filhos de nossos filhos, quase sempre repetidas pelo lado feminino da família.

A mulher se preocupa e se envolve com coisas que nunca os homens irão entender ou considerar como ação primordial. Tais valores que pra nós são indispensáveis, para eles não passam de pequenos detalhes, só que não, pois ao verem os efeitos, a participação, o envolvimento e o resultado final, gostam muito de tudo.
Como é o caso da festa natalina ou encontro familiar anual, aquele que é o mais emblemático de todo o ano, e que tem sempre a participação ativa da mulher para que tudo dê certo.

Como diz Martha Medeiros; Papai Noel não existe e sim Mamãe Noel, se não acredita, confirme abaixo.




Mamãe Noel

Sabe por que Papai Noel não existe? Porque é homem. Dá para acreditar que um homem vai se preocupar em escolher o presente de cada pessoa da família, ele que nem compra as próprias meias? Que vai carregar nas costas um saco pesadíssimo, ele que reclama até para colocar o lixo no corredor? Que toparia usar vermelho dos pés à cabeça, ele que só abandonou o marrom depois que conheceu o azul-marinho? Que andaria num trenó puxado por renas, sem ar-condicionado, direção hidráulica e air-bag? Que pagaria o mico de descer por uma chaminé para receber em troca o sorriso das criancinhas? Ele não faria isso nem pelo sorriso da Luana Piovani! Mamãe Noel, sim, existe.

Quem é a melhor amiga do Molocoton, quem sabe a diferença entre a Mulan e a Esmeralda, quem conhece o nome de todas as Chiquititas, quem merecia ser sócia-majoritária da Superfestas? Não é o bom velhinho.

Quem coloca guirlandas nas portas, velas perfumadas nos castiçais, arranjos e flores vermelhas pela casa? Quem monta a árvore de Natal, harmonizando bolas, anjos, fitas e luzinhas, e deixando tudo combinando com o sofá e os tapetes? E quem desmonta essa parafernália toda no dia 6 de janeiro?

Papai Noel ainda está de ressaca no Dia de Reis. Quem enche a geladeira de cerveja, coca-cola e champanhe? Quem providencia o peru, o arroz à grega, o sarrabulho, as castanhas, o musse de atum, as lentilhas, os guardanapinhos decorados, os cálices lavadinhos, a toalha bem passada e ainda lembra de deixar algum disco meloso à mão?

Quem lembra de dar uma lembrancinha para o zelador, o porteiro, o carteiro, o entregador de jornal, o cabeleireiro, a diarista? Quem compra o presente do amigo-secreto do escritório do Papai Noel? Deveria ser o próprio, tão magnânimo, mas ele não tem tempo para essas coisas. Anda muito requisitado como garoto-propaganda.

Enquanto Papai Noel distribui beijos e pirulitos, bem acomodado em seu trono no shopping, quem entra em todas as lojas, pesquisa todos os preços, carrega sacolas, confere listas, lembra da sogra, do sogro, dos cunhados, dos irmãos, entra no cheque especial, deixa o carro no sol e chega em casa sofrendo porque comprou os mesmos presentes do ano passado?

Por trás do protagonista desse megaevento chamado Natal existe alguém em quem todos deveriam acreditar mais.



Algumas fotos da ornamentação de Natal do centro de Petrópolis este ano.









quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

O corpo avisou.



Este último mês não foi fácil para mim. Acho que eu não soube trabalhar bem minhas emoções e elas resultaram em problemas que foram somatizando-se e fiquei bastante afetada, mas eu sou também uma pessoa que não deixo de olhar para dentro de mim e por esta razão estou me tratando carinhosamente, apesar disso tudo me trazer muito trabalho e falta de tempo, até mesmo concentração, para escrever ou interagir mais pelo mundo virtual que tanto gosto.

Todos nós passamos por tempos ou momentos de nossas vidas em que o corpo reclama e pede uma parada, pede pra ser olhado, pra ser acarinhado, já que na correria dos dias, nos importamos mais com os outros do que com nós mesmos.

Então, chega o momento que Fernando Pessoa nos alerta:

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos… ''

Muitas vezes precisamos, além de fortalecer-nos com medicamentos e boa alimentação, ler e interpretar as sábias palavras de grandes pensadores, filósofos, poetas e mestres que clareiam e mostram novos caminhos para a total cura interna de nossos problemas e isto faz parte também da cura total do corpo e que tento sintonizar com a mente, pois estou certa de que ela, a mente, é que produz muito de nossas doenças.

"O conhecimento de si passa pelo alargamento, pelo refinamento da consciência do corpo, a fim de que a consciência do corpo se torne o corpo da consciência."
Gerda Boyesen, 
criadora da Massagem Biodinâmica.

Estou consciente que preciso continuar neste caminho de cuidados comigo mesma, e não quero ser fatídica, pois sei que existem problemas muito piores por aí afora. Aliás, sobre 'problemas', deixo abaixo um texto interessante, sem autoria, mas que serve-nos de incentivo e lembrete para quando acharmos que só nós é que temos ... problemas.



O carpinteiro terminou mais um dia de trabalho. Como era final de semana, resolveu convidar um amigo para beber algo em sua casa.
Ao chegar, antes de entrarem, o carpinteiro, parou por alguns minutos, diante de uma árvore que ficava em seu jardim. Em seguida, tocou seus ramos com ambas as mãos.
Imediatamente, seu rosto mudou. 
Entrou em casa sorrindo, foi recebido por mulher e filhos, contou histórias e
saiu para beber com o amigo na varanda.
Dali podiam ver a árvore.
Sem conseguir controlar sua curiosidade, o amigo perguntou o que fizera antes.
- Ah esta é a árvore dos meus problemas, respondeu. - Sei que não posso evitar
ter aborrecimentos no meu trabalho, mas estas preocupações são minhas, e não pertencem
à minha esposa nem aos meus filhos.
Assim, quando chego aqui, penduro meus problemas nos ramos daquela árvore.
No dia seguinte, antes de sair para o trabalho, eu os recolho de novo.
O mais curioso, porém, é que quando saio de manhã e vou procurá-los, alguns
já não estão mais ali, e outros parecem bem menos pesados do que 
na noite anterior.








segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Lembranças e saudade companheiras.



Dizem hoje em dia, que relembrar o passado não é coisa boa, que é mania de velho, que devemos viver o hoje e esquecer tudo o que passou e fazer do momento presente o mais importante de nossas vidas. Será mesmo!?

Sei não! Como poderei enterrar minhas lembranças mais queridas e até mesmo as mais doridas se sou feita delas e as mesmas agora, me fazem feliz ao relembrar. Simplesmente porque foram momentos únicos, tão meus e tão queridos, afirmando que tive amigos, família, vida com conforto e carinho, comida na mesa, escola e lazeres.  Foi a vida que Deus me concedeu e que eu trilhei e fiz escolhas, algumas não deram certo, mas posso garantir que a maioria delas me foram proveitosas.

E porquê estou falando sobre lembranças agora? Por que noutro dia, ao entrar numa dessas novas salas de cinema, até confortável em comparação com algumas por aí, lembrei-me da inexplicável sensação de como eram as salas de cinema nos anos 70, aquelas grandes, com cortinas de veludo e chão de tapete macio, onde os pés afundavam ao andarmos e, se já estivesse escura a sala, um lanterninha nos acompanhava com a luz azul iluminando nosso caminho até a poltrona vazia. Era um ambiente completamente diferente do que vemos hoje e que os mais jovenzinhos nem têm ideia, já nasceram e cresceram vendo películas nestas salas, embora tenha algumas incríveis, com cadeiras super confortáveis, com lugar para o mega pote de pipoca e o blaster copo de refrigerante. E ainda tem o som supersônico de arrasar quarteirão, o suficiente para  deixar qualquer um surdo de uma vez por todas com estes filmes épicos, de ficção ou aventura. Noutro dia, num simples trailler de um tal Hércules, quase tive que ir direto para o otorrino. Era só barulho ou grunhidos no mais alto grau.

Como não lembrar com saudade daqueles cinemas da Tijuca, o maior deles talvez, o Cine Metro Tijuca, com seu ar condicionado perfeito e a abertura do Canal 100, mostrando nossos jogadores mais talentosos em closes inusitados de suas pernas, das torcidas nos estádios, tudo embalado pelo sambinha de fundo que todos se animavam antes do filmes, "Que bonito é...!"

E tinha um breve noticiário, das coisas que estavam acontecendo pelo mundo afora e que chegavam pra gente com um certo atraso de tempo, mas nada que nos fizesse ficar fora do ar ou perdidos no tempo. Lembro-me de um avião enorme que vinha se aproximando da tela e, de repente, alçava voo sobre as nossas cabeças, sem 3D, com a mais simples emoção do que a tela grande proporcionava.
Invariavelmente, eu me abaixava na poltrona, boba que nem só!
Saindo dali, o must era ir tomar milk shake ou sundae de chocolate no Café Palheta, reduto dos playboyzinhos e patricinhas da época.

Lembranças não são ativadas só nos mais velhos, e prova disso é que esta semana, duas jovens que moram fora do país, comentaram, emocionadas, num post que fiz no Facebook, mostrando apenas uma imagem e perguntando se alguém conhecia aquela frutinha. Uma dessas amigas, chegou às lágrimas com a saudade que sentiu, ao relembrar sua mãe, fazendo sempre para a família, o doce daquele fruto, o Cupuaçu, que os nortistas conhecem bem e lembram de seu sabor pro resto dos seus dias, um sabor atávico, de lembranças doces e emocionantes. Como o tempo passa rapidamente, os mais jovens já têm saudade de suas lembranças também.

Eu quero lembrar sempre dessas coisas boas que ficaram em minha vida. Quero lembrar, quando fecho os olhos e busco na memória olfativa, o sabor adocicado do pão doce vendido na porta de casa por um padeiro; quero lembrar das flores que meu pai trazia aos finais de semana para enfeitar nossa casa; quero lembrar de músicas que embalaram meus sonhos de adolescente aos sons dos Beatles e Rolling Stones; quero lembrar do cheirinho do pó de arroz Promessa e batom Helena Rubinstein que minha mãe usava ao sair conosco para passeios nos finais de semana; quero lembrar da sala de aula do primeiro colégio, as carteiras em madeira, duplas, compartilhada com um coleguinha; do cheiro do material novo do início de ano letivo; da minha pasta de couro e dos meus lápis de cores lindos, dentro de uma caixa especial; lembrar de um sapato de verniz, estilo boneca, na cor do sorvete Kibon de creme que eu adorava; lembrar de uma ida à praça principal do bairro que tinha um lambe-lambe e que fez algumas fotos bizarras da família, meu irmão com os olhos arregalados, minha irmã com cara de sono, segurando uma boneca que tinha ganhado no Natal e eu, também segurando minha boneca natalina e usando uma saia com manchas preto e brancas, lembrando uma vaca malhada, uma coisa horrorosa, mas que eu achava o máximo na minha ingenuidade infantil com meus cabelos fininhos arrumados num permanente que minha mãe insistia em fazer nos meus cabelos escorridos e sem volume; lembrar do primeiro telefone preto e pesado da casa de meus pais; da televisão com caixa enorme em preto e branco que causou enorme espanto e magia entre todos nós; lembrar dos lotações e dos bondes e da gentileza que permeava as relações do povo carioca naqueles velhos tempos. Saudade infinita e boa!

Tantas lembranças, tantas emoções, parecendo mais aquela música piegas do Roberto Carlos, mas que eu não vou deixar de lembrar com carinho enquanto viver, são mágicas e risonhas,  pois as coisas tristes eu tenho a capacidade de não relembrar, parecem que não existiram ou foram deletadas desta maravilha que é meu cérebro. As boas lembranças, em determinados dias, são como um rio caudaloso, escorrendo pra dentro de mim mesma, fortalecendo minha gratidão eterna pelas graças recebidas.
Cenas infantis da página Les Anées, Facebook
'' Hoje ando melancólica e suspirosa.
Choveu muito, a água invadiu este porão de lembranças, boiam na enxurrada a caminho do rio. 

Deixo que naveguem, pois não as perderei. 
O rio é dentro de mim. '' 

Adélia Prado 


E, por falar em escurinho no cinema, ouça esta versão deliciosa:













segunda-feira, 17 de novembro de 2014

A discórdia que traz o desenvolvimento.



"O Rio Tapajós corre em tom esverdeado cortando a floresta amazônica. Depois de cerca de uma hora de viagem, avista-se, no alto de sua margem direita, um conjunto de casas que forma a aldeia Sawré Muybu. O barco encosta na beira do rio, onde a trilha por um morro alto leva ao centro da aldeia. A subida é tão árdua que é difícil acreditar que essa aldeia pode ser alagada, caso a Usina Hidrelétrica de São Luiz do Tapajós venha a ser construída."

Através desta descrição lá no site do GreenPeace, fui visitar a tal aldeia, pelo Google que é mais rápido. E a impressão é de que uma Macondo de Gabriel Garcia Márquez reside naquele longínquo local do Amazonas, onde milhares de índios, lutam a cada dia pela sua terra querida que em breve será alagada para a construção de uma das hidrelétricas que o governo pretende implantar por lá.


Vejam o comentário de um homem que mora lá e que colhi no site do GreenPeace pelo Facebook. Ele fala o que vê e sente por estar inserido no contexto:

"Prenderam alguns donos das empresas que constroem hidrelétricas na Amazônia. Aqui no rio Tapajós querem construir umas cinco. A Dilma não quer nem saber se os ribeirinhos,extrativistas e indígenas irão sofrer com danos sociais,ambientais e econômicos.Nós da Amazônia nem somos beneficiados porque a energia vai toda para as outras regiões do país.O linhão de Tucuruí passa aqui no municipio onde moro, está sendo levada para outros estados.Enquanto isso aqui pagamos uma energia cara e de péssima qualidade... "

Talvez, se imaginarmos 75 mil campos de futebol alagados, tenhamos a ideia, rasa,  do que consistem estes mega projetos de Usinas Hidrelétricas (7 ao todo), entre o Xingu e Tocantins, terras paraenses onde vivem os verdadeiros donos da terra - os índios brasileiros.

Num país tão rico em energia natural, temos sol e vento à vontade, insisto na pergunta: Porque a matriz energética do Brasil tem que ser baseada em hidrelétricas?  Vemos a cada dia que uma das graves consequências do desmatamento na Amazônia é a falta e água nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Cientistas indicam que o desmatamento da Amazônia causa a desertificação dos estados e vários outros países da América do Sul também sofrem essas consequências. Grande parte da água das chuvas dessas regiões vêm da floresta, através de um fenômeno chamado de rios voadores, onde as árvores lançam a água do solo para a atmosfera. Então, sem florestas, sem chuva. Sem árvores, sem água.

Está mais do que na hora da gente ajudar estes povos irmãos, pois também estamos sendo atingidos com toda esta modificação que veem fazendo no clima do mundo.

Assinem, por amor, esta petição:









"Depois de exterminada a última nação indígena
E o espírito dos pássaros das fontes de água límpida
Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias ..."

(Um índio-Caetano Veloso)